sexta-feira, 20 de abril de 2012

Falsos consolos




Uma das historinhas que costuram o filme de Mathieu Kassovitz, La Haine (1995), O Ódio, é a de que um homem cai de um apartamento de 50 andares. Na queda, em cada andar, ele diz a si mesmo: jusqu’ici tout va bien, jusqu’ici tout va bien, jusqu’ici tout va bien. Até aqui tudo vai bem. Moral da história: "Mais l'important c’est pas la chute, c’est l’atterrissage." O mais importante não é a queda, é a aterrisagem. 
Outro que dá a sensação de falso consolo é Erasmo de Rotterdam, no Elogio da Loucura. Diz ele, ou melhor, ela, a Loucura, que o homem sábio, triste e amargo (ao contrário do louco) morre cedo, numa idade em que os outros começam a viver. "Embora, para falar a verdade, a hora da morte seja completamente indiferente para quem nunca viveu."


domingo, 11 de março de 2012

Jean

Meus olhos
entornados
num ligeiro sonho
automático
em necessária
rifa de encantos
algumas vezes
falando fora de
mim mesmo
& além disso
consolado
nos terraços
de tijolos úmidos &
gerânios de cobalto
assobiando lentas canções
quando eu lembrava Jean
a olhar para mim
citando Baudelaire
na penumbra
onde seu rosto
teria podido matar
numa doce ELEVADA
fome

(Piazza III, Roberto Piva)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

pont-neuf, religieuse portugaise, juliette pixote e alina reyes

Pont- Neuf, na minha primeira noite em Paris. Voltaria na ponte todos os dias seguintes, enquanto ali.

Pont-Neuf onde Monsieur Gilles Morineaux, encontrado na Boîte 48, "Les Vieux Livres du Pont Neuf", em 22/10/2011, olhou para mim e disse que eu gostaria do seguinte: um livro anônimo - que dizem ter sido escrito por Diderot - "Lettres de la Religieuse Portugaise", cartas de uma religiosa portuguesa. Ela, enclausurada em seu país, ama, em segredo e a distância, um francês.
Cheguei pedindo Bataille, mas Gilles disse que uma brasileira (sem saber que eu era, pois estávamos falando em inglês) havia comprado seu único Bataille havia uma semana. Rimos quando eu disse que Bataille era pop aqui no Brasil.

Conversamos um pouco sobre meus interesses literários recentes e a dica de Gilles foi: se quiser encontrar quem mais entende de literatura erótica é Monsieur Alexandre Dupouy, de uma livraria perto do Pompidou.

Depois da conversa, feliz com a aquisição, me dirijo à ponte, sento, abro o livro numa página qualquer (aquela coisa de viagem) e arrepio, pois a maior epifania de anos e anos:

Cesse, cesse, Marianne, infortunée, de te consumer vainement, et de chercher un Amant que tu ne verras jamais, qui a passé les Mers pour te fuir, qui est en France ai milieu des plaisirs, qui ne pense pas un seul moment à tes douleurs, et qui te dispense de tus ces transports, desquels il ne te sçait aucun gré?

que eu entendi muito bem, mesmo com meu français trés-bizarre:

Cesse, cesse, Marianne (incrivelmente, eu!), infeliz, você queima em vão, e procurar um amante que você nunca verá, que passou os mares para escapar de ti, que está na França no meio dos prazeres, que não pensa por um momento para sua dor ...

Tenho uma obsessão por essa ponte, desde "Os Amantes da Ponte Neuf", com a Juliette carinhosamente chamada de Juliette Pixote.Foi lá também que encontrei Alina Reyes, do Bestiário do Cortázar.
Estão todas lá.
E me esperam.