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segunda-feira, 16 de julho de 2007

Esquizofrenia limita entendimento de linguagem corporal

(Com Ciência, 13 de junho de 2006)
Compreender o significado de um movimento do corpo ou de uma postura frente à determinada situação é fácil para muitas pessoas. Mas pesquisas norte-americanas dão indícios de que pacientes que sofrem de esquizofrenia não têm a mesma capacidade de percepção social que aqueles que não têm a doença. Mesmo em níveis moderados ou tratados com remédios, esquizofrênicos não têm "fluência" na linguagem corporal, de acordo com pesquisadores da Universidade de Iowa.

O grupo formado por Nirav Bigelow, Sergio Paradiso e Nancy Andreasen, em artigo publicado na Schizophrenia Research de abril deste ano, mostrou, através de testes com vídeos, que indivíduos com a doença não conseguem diferenciar satisfatoriamente movimentos de alegria e tristeza, por exemplo.

Segundo Mario Rodrigues Louzã Neto, médico assistente e coordenador do Projeto Esquizofrenia (PROJESQ) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da USP, trata-se de um novo trabalho na direção do que já se conhece. Estudos prévios feitos por Paradiso e Andreasen - ambos professores de psiquiatria - já mostravam que pacientes com esquizofrenia têm problema em decifrar expressões faciais.

Para o professor brasileiro, o artigo tem importância porque aprofunda o conhecimento de onde residem essas falhas. "Existem casos de pacientes que não olham nos pontos essenciais, como nos olhos e na boca, para decodificar estado emocional de uma face", exemplifica. "Como os códigos sociais são muito complexos, para criar meios de superar ou contornar essas falhas, é necessário que se entenda como elas ocorrem", explica Mario Louzã.

O estudo norte-americano incluiu 14 pessoas sem esquizofrenia e 20 com esquizofrenia que estavam tomando remédio e tinham suaves sintomas moderados. Em um dos testes, participantes assistiram um vídeo de corpos humanos em movimento. As imagens eram manipuladas de um modo que as características faciais ou o formato dos corpos não podiam ser vistos. Ao invés disso, somente pontos de luz, atados às juntas, eram visíveis quando se moviam. Baseados na velocidade e no padrão dos pontos de luz, indivíduos com esquizofrenia e voluntários saudáveis foram levados a determinar se o movimento descrevia alegria ou tristeza. O estudo mostrou que indivíduos com esquizofrenia não podiam decifrar essas emoções.

Participantes do estudo também assistiram clipes contendo cenas complexas de situações sociais, nas quais os rostos dos atores eram apagados. Os participantes assistiram depois as mesmas cenas com as faces. Pessoas com esquizofrenia não melhoraram suas performances, pois mesmo com as faces descobertas, não identificaram totalmente o humor das pessoas em cena.

O estudo aponta que o tratamento padrão para esquizofrenia não parece ser capaz de melhorar a percepção que ajuda a sociabilidade com os outros. A disfunção também não parece ter relação com o nível de inteligência. O próximo passo a ser dado pelos pesquisadores da Universidade de Iowa é examinar mais de perto como a medicação usada para tratar esquizofrenia afeta a percepção social para avaliar se diferentes medicações teriam diferentes efeitos. De acordo com Mario Louzã, hoje os medicamentos são mais eficazes e têm menos efeitos colaterais que os mais antigos - que causavam muitos tremores nos pacientes.

Além da medicação, o tratamento da esquizofrenia pode ser feito com reabilitação, através de terapias. Louzã cita o chamado social skill training, utilizado desde a década passada, em que se mostram vídeos explicando a maneira de agir dos atores e os esquizofrênicos aprendem a identificar emoções e lidar com situações corriqueiras, banais para a maioria das pessoas.

Prevenção de amputação

(Correio Popular - Opinião - 24 de novembro de 2005)

Ele ficou cinqüenta dias hospitalizado. Iria tirar o dedão do pé esquerdo, que necrosara após uma pequena inflamação ao lado da unha e acreditava que não demoraria muito a voltar a sua casa. Entretanto, o corte infeccionou. Como era uma pessoa “doce”, os fungos e bactérias (existentes aos montes no ambiente hospitalar) reproduziram-se com facilidade.

Para “limpar” o ferimento, retiraram-lhe mais um pedaço do pé. Depois, como a inflamação não o deixava, a perna se foi. Durante esse tempo, teve de brigar para conseguir duas angioplastias pelo sistema público, para desobstruir artérias. Mesmo assim, o outro pé acabou necrosado.

O caso de Israel Garcia Alves, 59 anos, é exemplo dos problemas vasculares com conseqüências traumáticas. Recentemente, teve a perna esquerda e o dedinho do pé direito amputados em decorrência da má circulação causada pelo diabetes. Ele foi atendido pelo SAS (Sistema de Assistência à Saúde - convênio dos servidores públicos do Paraná) e SUS (Sistema Único de Saúde), em Maringá (PR).

Neste ano, o tema oficial da campanha da International Diabetes Federation - IDF é o cuidado com o “pé diabético”. “Dê um passo à frente. Previna as amputações” é o slogan que tem sido veiculado com o objetivo de incentivar a atenção especial aos membros inferiores do diabético por parte do médico, paciente e família. Nas campanhas anteriores, outras complicações graves da doença, como nos rins e nos olhos, foram abordadas.

A cada minuto, duas pernas são amputadas, devido ao diabetes, em algum lugar do mundo. Mais de 70% de todas as amputações estão relacionadas à doença. No Brasil, conforme dados do Ministério da Saúde, pequenas lesões geraram, somente no ano passado, 17 mil amputações de coxas e pernas (excluindo dedos necrosados), a um custo anual de R$ 18,2 milhões ao SUS. Enquete feita pela Sociedade Brasileira de Diabetes mostrou que, de 311 diabéticos, 65% nunca tiveram seus pés examinados. Apesar do diabetes ser conhecido como uma “doença traiçoeira”, a IDF estima que a maioria dos casos de úlceras evoluídas tem prevenção. Segundo a instituição, 85% das amputações poderiam ser evitadas.

Programa de referência internacional, o projeto Salvando o Pé Diabético, implantado pela Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal mostra que políticas públicas trazem avanços consideráveis. Desde 1992, tem sido feito o esforço de integrar equipes multidisciplinares, formar profissionais para exames periódicos nos pés dos diabéticos em hospitais públicos e introduzir centros clínicos especializados. No Hospital Regional de Taguatinga (DF), houve queda de 77,8% nas amputações feitas acima do tornozelo, de 1992 a 2000. Hoje, existem mais de 50 ambulatórios voltados ao “pé diabético” no País. O relatório publicado na Neuropathy Issue (Vol 16, 2004) apontou como principais obstáculos à prevenção: a baixa taxa de revascularização (causada pela falta de cirurgiões, pouco interesse dos que existem e demora nas cirurgias), a longa espera por próteses (pacientes esperam, em média, seis meses na rede pública) e a dificuldade de estruturar equipes especializadas (faltam cursos de podiatria).

Em 14 de novembro, no Dia Mundial do Diabetes, realizou-se uma Conferência Global, em Salvador(BA), apoiada pela IDF, Grupo de Trabalho Internacional do Pé Diabético (IWGDF) e Organização Mundial da Saúde. Confiante, a coordenadora do Salvando o Pé Diabético e responsável pelo Departamento de Complicações Crônicas da Sociedade Brasileira de Diabetes, dra. Hermelinda Pedrosa, afirma que a escolha do Brasil para sediar a Conferência traz visibilidade ao programa e estimula ações governamentais. Em outubro, o Ministério da Saúde constituiu um grupo de trabalho para definir diretrizes nacionais para prevenção, diagnóstico precoce, tratamento e reabilitação das lesões do pé diabético.

Embora o Ministério da Saúde apóie a campanha e ainda que se construa um modelo de prevenção, não existe no Brasil uma política de saúde pública que possa prevenir as doenças arteriais periféricas dos portadores da doença. O senhor Israel Garcia, embora tivesse deficiência renal crônica e problema de visão, não recebia exames periódicos nos pés, não tinha acompanhamento de equipe multidisciplinar especializada e não teve tempo, com procedimentos de revascularização tardios, de ter suas pernas salvas.

O grande coração de Garcia não suportou a dor agravada pela amputação. A retirada de uma perna abriu a porta para a infecção generalizada que o levou. Perdi meu pai no último dia 13, pouco antes do Dia Mundial do Diabetes. Perdi meu melhor amigo e meu mais lindo amor. Perdi um pouco a vontade de viver. Existe política para isso?

Mariana Garcia de Castro Alves é jornalista, estudante do Centro de Estudos Avançados em Jornalismo (LABJOR/Unicamp) e, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), desenvolve projeto de divulgação científica.