domingo, 7 de junho de 2009

Leminski vive





o pauloleminski

é um cachorro louco

que deve ser morto

a pau a pedra

a fogo a pique

senão é bem capaz

o filhadaputa

de fazer chover

em nosso piquenique


(Caprichos e Relaxos)


Depois de 20 anos de sua morte, o poeta e escritor paranaense ainda chove em nosso piquenique.

Saiba por que, ainda hoje, o poeta polaco mulato paranaense, o cachorro louco da nossa literatura, atrai a atenção de jovens leitores.

Nome definitivo na literatura brasileira, Paulo Leminski faleceu em 07 de junho de 1989, há exatos 20 anos, em Curitiba, vítima de cirrose hepática.

Ao contrário do que acontece em uma sociedade de “celebridades”, o fim da vida de Leminski, marcada por uma constante paixão pela linguagem, não esfriou o grande interesse pela sua obra.

O biógrafo do poeta, Toninho Vaz, garante: o interesse sobre a vida e obra de Paulo Leminski continua crescendo.



O bandido que sabia latim



Biografia lançada em 2001 pela Editora Record, “O bandido que sabia latim” (do jornalista e amigo de Leminski, Toninho Vaz) entrou em sua 3ª.edição em maio, perfazendo o total de 8 mil exemplares. Extra oficialmente, a biografia é um dos livros mais acessados através de download grátis em sites de busca na internet.

Apesar desse grande interesse pela vida intensa de Leminski, Toninho Vaz percebe que a atração é mais direcionada ao valor da obra que a questões folclóricas da figura “bandida” do artista.

“Os jovens querem saber se ele realmente tinha valor, se sua poesia se sustenta como obra e não como nuvem passageira”, diz Toninho, com agenda cheia de palestras.

“Acontece que o Leminski era um sujeito autêntico e um verdadeiro poeta – não vai ser em toda esquina que você vai encontrar isso”, afirma.


nunca quis ser

freguês distinto

pedindo isso e aquilo

vinho tinto

obrigado

hasta la vista



queria entrar

com os dois pés

no peito dos porteiros

dizendo pro espelho

_ cala a boca

e pro relógio

_ abaixo os ponteiros



As mil faces do poeta


Leminski transitou por diferentes áreas da linguagem e rompeu barreiras da literatura tradicional.

Publicitário, tradutor, professor de cursinho, compositor de música popular (teve parceria com Moraes Moreira, Caetano Veloso e Guilherme Arantes entre outros) e até colunista de TV (participava de um programa chamado Jornal de Vanguarda, na Bandeirantes, em 1988 http://www.youtube.com/watch?v=ZkS3LzXGIk0&feature=related



www.youtube.com/watch?v=V7ZManYbmp0), Leminski mergulhou na poesia e na prosa estilhaçando preconceitos e estabelecendo novos parâmetros para a criação literária no país.

Como romancista, publicou “Catatau” (1975) e “Agora que são elas” (1984). Na poesia, publicou “Não fosse isso e era menos. Não fosse tanto e era quase”(1980), “Caprichos & Relaxos”(1983) e “Distraídos Venceremos”(1987). Para o público infanto-juvenil, fez “Guerra dentro da gente” (1986).

Polilíngue, traduziu livros como “Pergunte ao pó”, de John Fante, “O supermacho”, de Alfred Jarry, “Satiricon”, de Petrônio, “Um atrapalho no trabalho”, de John Lennon e “Malone morre”, de Samuel Beckett.

Judoca faixa-preta, traduziu os japoneses Yukio Mishima (1925-1970), Matsuo Bashô (1644-1694) e ainda se arriscou na forma dos haicais (poemas curtíssimos que tradicionalmente trazem uma imagem sobre uma estação do ano com uma métrica definida, o que não era seguido por Leminski necessariamente).

Ex-monge beneditino, zen-budista também interessado em astrologia, Leminski escreveu biografias de personalidades que vão do revolucionário russo Trotski e do poeta catarinense Cruz e Souza a nada mais nada menos que Jesus Cristo.
Coloquial e erudito, Leminski misturou o que recebeu do modernismo de Oswald de Andrade ao rigor dos concretistas Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos no liquidificador do cenário cultural dos anos 1970, garantindo um lugar próprio na literatura brasileira.


Para Caetano Veloso, “Leminski foi o poeta mais apaixonado e o escritor mais intenso de sua geração”.


POESIA: 1970


Tudo o que eu faço
alguém em mim que eu desprezo
sempre acha o máximo.

Mal rabisco,
não dá mais para mudar nada.
Já é um clássico.





Leminski é novidade hoje



O datado de Leminski é mais importante do que 99% do que se escreve hoje, diz o poeta Régis Bonvicino

Apesar do grande interesse despertado por Leminski ainda hoje, nem toda a sua obra pode ser considerada atual, de acordo com o poeta Régis Bonvicino (http://regisbonvicino.com.br/). A forma do haicai, por exemplo, já teria sido banalizada e, portanto, esgotada.


Bonvicino era amigo pessoal de Leminski e reuniu e lançou cartas remetidas a ele de 1976 a 1981 sob o título “Envie meu dicionário – Cartas e alguma crítica” (1999), livro que forma um retrato das concepções poéticas de Leminski na época.

Segundo Régis Bonvicino, mesmo que algumas inovações de linguagem trazidas por Leminski estejam ultrapassadas devido a novas experiências nacionais e internacionais, o datado de sua obra seria mais importante do que 99% do que se escreve hoje. Entre essas novas experiências de linguagem, Bonvicino cita os norte-americanos Charles Bernstein e Ron Silliman.

“Para citar outros paranaenses: para cada Josely Vianna Baptista e ou para cada Wilson Bueno, surgem milhares de poetas amadorísticos e desnecessários. Leminski é um nome definitivo da literatura brasileira, como Dalton Trevisan, por exemplo. E no Brasil tudo caiu a partir dos anos 1990 e então o que ele fez se sustenta até como novidade ainda”, afirma.

De acordo com Bonvicino, Paulo Leminski veio em seguida à última geração que teve projeto literário (obra e visão convertida em trabalhos pela e para a literatura), a de Gullar, de Augusto de Campos, de Décio Pignatari. “Ele, Torquato Neto e Ana Cristina César são os únicos -- depois dessa geração que menciono -- a terem uma visão de estado da literatura”, ou seja, a realizarem uma reflexão sobre a linguagem, a abrir “picadas” que precisariam continuar sendo abertas hoje, na sua opinião.




moinho de versos

movido a vento
em noites de boemia




vai vir o dia

quando tudo que eu diga
seja poesia



Paixão pela linguagem


Vida inteira de poesia foi intensa para o polaco mulato chamado Leminski.


Paulo Leminski Filho – tinha o mesmo nome do pai – nasceu em 24 de agosto de 1944, em Curitiba.

Filho primogênito de um sargento do exército, Leminski insistia em se apresentar como mestiço de polonês (por parte de pai) e negro (por parte de mãe).

Infância

Na lembrança de uma tia, era uma criança esperta e “superativa”.


Minha mãe dizia:
_ ferve, água!

_ frita, ovo!

_ pinga, pia!

E tudo obedecia




Aos treze anos, estudando no Colégio Paranaense (marista), decidiu se tornar monge e, levado pelo pai, internou-se no Mosteiro de São Bento, em São Paulo.

Sem nenhuma dificuldade de adaptação (só não gostava de jogar futebol, apesar de ser um garoto corpulento), Leminski interessou-se por latim e grego. Mas não era caxias. “Era considerado mais um anarquista com idéias próprias e originais”, lembra Sinval de Itacarambi Leão, jornalista.




abrindo um antigo caderno



foi que descobri



antigamente eu era eterno







Com alguns colegas, tinha atitudes ousadas, como, por exemplo, conhecer todas as salas proibidas e andar sobre o telhado do mosteiro nas madrugadas.

Quando um álbum de vedetes (sua preferida era Brigitte Bardot) foi descoberto de baixo de seu colchão, a direção educadamente o convidou a se transferir para outro colégio.



nunca sei ao certo

se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé




certezas o vento leva

só dúvidas continuam em pé




Juventude



De volta a Curitiba, Leminski passou no vestibular em Direito na Universidade Federal do Paraná e em Filosofia (Letras) na Católica.

Em 1963, conseguiu ir, pela faculdade de Direito, a Belo Horizonte para a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda.
Lá, conheceria Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, o pessoal da poesia concreta paulista, editores da revista Noigandres, com os quais tinha muitas afinidades. A disposição para adotar uma atitude de vanguarda seria alimentada por esse encontro.




isso de querer

ser exatamente aquilo

que a gente é

ainda vai

nos levar além




Maturidade



Com o passar do tempo, a completa identificação com a poesia concreta foi se desfazendo. Ele passaria a refletir que só a preocupação com a forma não bastava para a poesia.

A partir dali, Leminski não parou mais de “pesar a barra no sentido do texto-criação/ a coisa-linguagem/ o signo opaco/ sem sair do jornalismo/ contrato social/ eu falo- você entende” (carta a Régis Bonvicino, 14/03/1979).
Casou-se com Alice Ruiz, com quem tem duas filhas e um filho - morto ainda criança, em decorrência de um câncer. Além desse episódio trágico, em 1986 perdeu o único irmão Pedro Leminski, que cometera suicídio. Seria a primeira vez que Paulo Leminski fala em morrer a Alice Ruiz. O alcoolismo avança e o casal acaba se separando.




Contados por Alice Ruiz, os últimos dias de vida do poeta:



2 de junho de 1989 (The shadow of your smile)



Você me liga mais triste do que de costume. Me diz teu último poema. Falamos da felicidade. Você pergunta da minha. Digo, como Borges, “que hay tantas otras cosas en la vida” além da felicidade. Você me diz que ela ficou na Cruz do Pilarzinho, que felicidade para você is just memories. Eu canto, “memories, make it beautiful as yet”, tentando ainda ser leve, mas você me interrompe chorando, e eu, mesmo sem querer, choro também.



6 de junho de 1989 (se houver céu P.L.)



Estranho você não ter ligado nos últimos dias. De tarde, no trabalho, perco a consciência, desligo de repente e é como se sonhasse com você. Apenas te vejo, sorrindo, nítido como se estivesse mesmo ali. Acordo com o peito oprimido e um gosto de adeus na boca.



(Publicado em Memórias de Vida, Curitiba, 23 de agosto de 1989, Fundação Cultural, Prefeitura Municipal de Curitiba)





nada foi



feito o sonhado



mas foi benvindo



feito tudo



fosse lindo.







Arte por Leminski e



Leminski pela arte



Trechos de entrevista a Almir Feijó, revista Quem (1978, Ctba) mostra concepção poética do artista.



Poesia concreta: “[...] pode-se dizer que talvez ninguém mais esteja fazendo poesia concreta no Brasil mas a poesia concreta é a grande influência sobre a poesia que se faz no Brasil.” [...] No caso brasileiro influenciou até a música popular. Influenciou desde Chico Buarque, que diz “pedro pedreiro”.O Caetano é um dos melhores poetas concretos do país. Um poeta que diz: “Quero ver Irene rir. Quero ver Irene dar sua risada.” A sensibilidade de Caetano é uma sensibilidade naturalmente concreta.”



“A grande mensagem da poesia concreta foi a materialidade da linguagem.”



Linguagem: “Chego mesmo a dizer que a literatura é o principal inimigo da poesia. O papel da poesia é se desvencilhar da literatura, e procurar a companhia de outras artes, como o desenho, a fotografia ou a música.”



Arte “engajada”: “ Esse movimento, encarnado pelos CPCs [Centros Populares de Cultura], pela figura de Ferreira Gullar e Thiago de Mello, eles canonizam um tipo de poesia que é uma poesia discursiva, retórica, uma poesia demagógica e no fundo, cristã. Apelativa, sentimentalóide, quando se pretende contundente politicamente e enquanto denunciando as mazelas sociais aqui e ali”.



Engajamento na arte: “[...] o front na forma, é ali que deveria ser exercido (o discurso de mudança) realmente. No Brasil foi feita essa dissociação que é promovida por muita gente e eu desconfio que por detrás dela há, inclusive, os interesses comerciais de muitas casas [...] Acho muito suspeito quando vejo que os poetas ditos políticos defendem as mesmas coisas que os comerciantes.”



“A posição que eu escolhi é para ser uma espécie de oposição na linguagem, permanente.”





lembrem de mim



como de um



que ouvia a chuva



como quem assiste missa



como quem hesita, mestiça,



entre a pressa e a preguiça.

Um comentário:

Guiga disse...

Em 2006 participei como ouvinte da segunda edição do Londrix (Festival de Literatura de Londrina), até então eu desconsiderava a importância de Leminski, lembro que a temática era "literatura de margem".