quinta-feira, 12 de março de 2009

A paz é fruto da justiça


Violência combate violência? Pe Gunther, da Pastoral Carcerária de SP, diz que não.

Pe Gunther Zgubic faz parte da coordenação nacional da Pastoral Carcerária, área social da Igreja Católica de defesa dos direitos de presos e presas. Nascido na Áustria, ele vive no Brasil há 17 anos. Trabalhou em favelas no Jardim Ângela em São Paulo e com moradores de rua.


Idealizador do tema “violência” da Campanha da Fraternidade de 2009, organizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Pe Gunther Zgubic falou comigo sobre segurança pública, ao telefone.

Para ele, a população deve começar a agir e cobrar mais justiça social e uma política de segurança preventiva, voltada à integração comunitária.

1) Muitos programas de programas de TV pedem pena de morte, redução da idade penal etc. Para eles, e para a maioria da população, o problema do crime é a falta de repressão. Mas, ao invés de recuperar o preso, as prisões são freqüentemente lugares onde se incita ao crime e à violência. Como quebrar esse círculo vicioso?
Acho que com outro discurso, talvez. Eu acho que a população, em verdade, não quer tanto a morte, mas segurança de vida como direito para todos.

Dessa forma, eu espero que se possa sair desse discurso de “vocês só defendem bandidos e não olham para as vítimas”. Se nós não queremos o ódio (o ódio sempre vai criar círculo vicioso), nós precisamos ver que existem outras soluções. As outras soluções têm resultados mais convincentes do que a pura repressão. E isso agora é fato.

Onde a segurança pública (de vida) melhorou foi onde começou um trabalho de toda uma justiça social, mas também um trabalho comunitário.

2) Sabemos que no Brasil só vai para a cadeia o chamado “ladrão de galinha”. Entretanto, os crimes de colarinho branco (corrupção, desvios de verbas nas altas esferas), são os que trazem as conseqüências mais trágicas para a nossa sociedade, como fome, desemprego, falta de assistência à saúde, analfabetismo, recessão da economia... É possível ter paz sem igualdade e justiça social?
Em um mesmo sistema econômico, cada país tem uma injustiça social mais ou menos ruim. Mas você tem num mesmo país, na mesma população, por exemplo, numa favela ou num município (incorporado a outro) menos crimes, menos violência que no outro.

Você tem o Jardim Ângela de Diadema, em São Paulo. Aquele era o município com mais violência no Brasil. E dentro de sete anos se reduziu o número de homicídios e outros problemas em 70%. Você tem outros bairros com a mesma economia em São Paulo...

Agora, vem a questão: porquê? Porque se aplicou um outro modelo de segurança pública. E esse modelo não se baseou na repressão como resposta da segurança pública para caçar criminoso. A justiça social é importantíssima. Mas o tema segurança pública tem uma pauta própria que inclui muitos aspectos, até a justiça social. Não se pode reduzir um tema próprio a outros que lhe estão associados.

O sistema de segurança pública é tratado como um modelo de cima para baixo. É responsabilidade só do Estado. Aí já estamos numa imposição de cima para baixo, numa visão que não é democrática, e numa falta de colaboração dos moradores.

Se nós queremos uma democracia participativa, planejamento estratégico participativo, então, os próprios moradores, os próprios grupos afins, por exemplo, uma fábrica, qualquer grupo deve ser trabalhado de forma própria.

Em São Paulo há diversos bairros em que os crimes, de bairro para bairro, são diferentes. No centro da cidade você tem pequenos furtos e narcotráfico, em outros bairros, mais homicídios ou furtos de carros. Então, o segredo em toda a melhora é um trabalho de conjunto.

Os moradores devem se unificar, unir, e a situação deles deve ser ouvida. Para matar ou tentar um novo modelo. Os Consegs, os conselhos da polícia em São Paulo, eram tipicamente assim: os comerciantes pagavam para a polícia matar as crianças de rua, por exemplo. Esse modelo já conhecemos e nada melhorou. (...)

Se você quiser uma polícia que não maltrate o povo, você tem que ter uma polícia comunitária. Temos conquistas no Brasil que se chamam: polícia comunitária, justiça preventiva e comunitária e pena como serviço comunitário. Na escola não podemos esperar ver um ou outro aluno começar com brutalidade. Sabemos que tem problema familiar ali. Essas famílias precisam ser acompanhadas. Isso é bem diferente de matar, bater ou prisão.

Se você tem uma política de observação, além das políticas sociais, você tem uma forma de mediação do conflito.

Um promotor da infância e adolescência tem, em Santo André, programas na escola. Ocorreu um problema grave na escola, a comunidade escolar com os professores, pais e também a justiça e a polícia comunitária.

Mas não é para punir, com vingança e ódio.

Em Diadema todos os funcionários municipais foram treinados em mediação de conflitos. Acho que não deveria ser somente funcionários do Estado, mas lideranças comunitárias fazerem um treino em conjunto, inclusive para a polícia aprender a experiência dos próprios moradores. Tem muitas medidas da linha da polícia comunitária, justiça comunitária e pena comunitária. São três grandes reformas que o sistema da segurança pública precisa.

3) A não-violência significa passividade diante das injustiças?
É o contrário.

É uma não-violência ativa que não aceita uma série de injustiças e falta de respeito, mas que se organiza.

A comunidade está ali. Cobra. Aperta. Coloca limites.

Enquanto polícia só correr de carro e não tiver um relacionamento personalizado porque não pertence à comunidade, enquanto todo mundo tiver medo polícia por sua brutalidade, a coisa não melhora.

8 de Março - Feminista com toda a razão!

Margarita Aguinaga, equatoriana, confessa quais flores quer ganhar dia 8/3

Para a maioria das mulheres, dia 8 de março é um dia qualquer. Algumas recebem rosas vermelhas, outras um modesto parabéns por suportar o peso de ser a “rainha do lar” e outras, talvez, nem isso.

Para uma militante feminista, o dia 8 de março não é um dia qualquer. Mais que uma data comemorativa, para Margarita Aguinaga, o Dia Internacional da Mulher é um dia de luta.

Margarita Aguinaga mora no Equador e se dedica à causa das mulheres. Presente no Fórum Social Mundial 2009, ela é hoje uma das lutadoras que mais se destacam no feminismo internacionalmente.

“A maioria das mulheres do mundo vive em terríveis condições de pobreza, de dominação sexual, de exclusão política ” diz.

Veja os principais aspectos que, segundo Margarita, faz a luta feminista ter sentido hoje.

Igreja e governos conservadores
Uma ofensiva conservadora do Vaticano e dos governos de direita no mundo inteiro avança pela proibição de que as mulheres decidam sobre seu próprio corpo.

Na maioria dos países, principalmente nos menos desenvolvidos, as mulheres são penalizadas ao fazerem abortos. Muitas morrem por realizarem abortos clandestinos sem a mínima condição de saúde. Para ela, o ataque contra o direito ao aborto é um fenômeno global, ainda que em vários países haja leis a favor desse direito.

A legalização do aborto é uma luta histórica do movimento feminista em defesa da autonomia das mulheres sobre seus corpos e suas vidas.

Migrantes em países ricos
Latino-americanas, mulçumanas, asiáticas e africanas se converteram na força de trabalho do mundo desenvolvido.

A grande maioria não tem direito a um trabalho digno, fazendo trabalhos manuais considerados de menor valor.

A internacionalização da força de trabalho, condição para a reprodução do capital, é afetada diretamente em momentos de crise, piorando ainda mais as condições de trabalho das imigrantes, de acordo com Margarita.

América Latina
Na América Latina, o número de desempregadas (mulheres) é 1,6 vez maior que entre os homens. Essa é uma das constatações do Panorama Laboral 2009, divulgado em 27 de janeiro pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Para Margarita, existe na América Latina um projeto anti-capitalista que precisa ser aprofundado para que se criem alternativas feministas.

Esse projeto anti-capitalista teria acirrado a luta de gêneros no Equador, Venezuela e Bolívia. De acordo com ela, isso tem a ver com o exercício dos direitos humanos, o crescimento de organizações de mulheres e luta contra a “feminização” neoliberal da pobreza.

Que flor Margarita quer?
“ Neste 8 de Março não tenho o que dizer senão que as únicas flores que quero receber são as do impulso, da criação fértil e da confiança em nossa luta”, diz a feminista que se despede com “abraços vermelhos, violetas, com muito amor feminista a todas, todas, diversas e lutadoras...”

Baseado no artigo “Ocho de marzo”, disponível em espanhol em
http://alainet.org.