terça-feira, 25 de setembro de 2007

Roteiro para moços - SP 1960

Ele me dizia sempre o que era viver melhor. Não me refiro a Jacob do Bandolim, para o qual seu filho Sérgio Bittencourt fez "Naquela mesa", mas a meu pai, que além das histórias contadas e conselhos oferecidos ao som de um bom samba e de uma cerveja gelada, deixou-me por escrito notas sobre sua juventude.
Agora, nem sei onde está a mesa, se vazia ou não. Resta a impressão, sem data, de um texto de muito valor para mim. Coloco-o na íntegra aqui para que, caso inventem a máquina da felicidade, a que faz voltar o tempo, possam os moços ter um roteiro para desfrutar os anos 1960 na capital paulista.


Por Israel Garcia Alves

"Insone, é madrugada e já estou de saco cheio...


Olho ao meu redor, acendo o abajour quebrado, pego a revista que está na banqueta ao lado e me animo a dar uma olhada. Trata-se de Caros Amigos de maio de 2004, leio a crônica Paulicéia do Emir Sader, acho-a interessante e me disponho a acrescentar algumas passagens da minha vida que talvez venham a justificar esse meu desconforto (acho que passageiro). À citação do ilustre jornalista, acrescentaria ainda a Avenida Ipiranga, Rua 24 de Maio, Praça Pedro Lessa e Avenida São João e tantas outras. Gostaria de relembrar especificamente a época dos bailes de formatura, onde os clubes com seus lindos eventos abrilhantavam noites inesquecíveis, embaladas pelas Orquestras de Waldomiro Lemke, Los Guarachos, Pocho, Portinho, Simonetti, Nelson de Tupã, Erlon Chaves e outras mais, para onde, em traje à rigor, inclusive com cordãozinho preto no pescoço, sapatos Bibo nos pés (comprados na Praça Clóvis Beviláqua), partíamos para a noite cheia de emoções regadas a Cuba-Libre e Ray Fay, nos clubes Home, Palácio Mauá, Professorado Paulista, Ipiranga e outros acabando sempre com a "saideira" na Liberdade, onde às 6h da manhã tomava o bonde Ponto Fábrica, com destino ao Ipiranga, local de minha residência.

Veio-me à lembrança ainda as casas noturnas da época encabeçadas pelo Quinta Avenida (onde se dançava com cartão) Melika, Castelinho, Som de Cristal, Badaró, Guarany e outras tantas. A "Boca do Lixo", situada entre a Av. São João e a Estação da Luz, era o local mais freqüentado, com seus hotéis e quantidade enorme de prostitutas, local que tinha seus encantos naquela época, pois não havia tanta violôncia e não se ouvia falar em drogas. A "Boca do Luxo" (assim a chamavam) era localizada nas Ruas Paim e Avanhandava, local de prostituição para a elite. Não sei se o Pingão, com suas batidas e lingüiças calabresas, continua ainda no lindo Largo do Arouche, cheio de flores, que conheci; se a Rua Monteiro, onde comprei meu primeiro tecido de casemira e o Juca Pato estão ainda na Rua Santa Tereza (e se ela mesma ainda está); se o Restaurante Guanabara na Rua Boa Vista, onde meu gerente da Cia. de Seguros, João Balas, ia saborear o melhor chopp de São Paulo, continua em atividade. Qualquer dia desses, me animo e vou para São Paulo, diretamente à Avenida São João, num sábado de madrugada, precisamente às 4h, para ver se encontro ainda aberto o Papai, agora já sem a companhia da voz e dele próprio Noite Ilustrada, para ouvir "Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima".


São tantas coisas que me é impossível relembrar todas as passagens de minha vida, mas não posso deixar de registrar o carinho e a amizade que tive e tenho pelo amigo Zelão, que me ensinou o caminho de como aproveitar a vida, desde a época das perseguições políticas no Largo São Francisco, onde havia quebra-quebra todos os dias em frente à Faculdade XI de Agosto e Banco de La Nación Argentina, onde trabalhávamos numa Cia. de Seguros no número 34 daquele Largo. Lembro-me do dia 31 de março de 1964, estávamos no Áurea's Bar do Zico, na Rua Guaianazes, quando estourou a revolução e por ordem dos soldados do exército fomos obrigados a levantar os braços, deixando no chão o Dario, cabelereiro do Tremembé. Até hoje não sei se agradeço ao Zelão ter me levado para sua casa no Tremembé naquela noite, pois, na verdade, não ouvi sequer um tiro da revolução fajuta ou o mais certo é que estivesse embriagado.


Se pudesse voltar aos meus dezoito anos, gostaria de pegar minha calça branca, sapato branco e minha camisa vinho de buclê e ir todo contente para um baile de carnaval no Arakan...


Minha filha, faça o que tiver vontade, aproveite e viva intensamente. Procure não dormir muito para ficar mais tempo acordada.


Você não pode imaginar o amor que sinto por você e o tamanho do orgulho que tenho por meus filhos, Pai."



Glossário a ser feito. Visitas e respostas às perguntas relacionadas aos lugares citados também.

Zelão, onde está o Sr? Gostaria de conhecê-lo!

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Visão hegemônica do gasto público

(Correio Popular - Opinião - 16 de novembro de 2007)

A idéia de que o Estado tem recursos, mas gasta mal, é hegemônica. A (mais) recente crise na saúde no Nordeste e, ao mesmo tempo, a bastante provável prorrogação da CPMF - criada originalmente para essa área - fazem supor que os altos impostos pagos pela população não melhoram os serviços públicos básicos. O mau gerenciamento da máquina - que inclui o gasto com pessoal e com a previdência - é citado como causa dos problemas financeiros do país. Um "mensalão oculto" que, apesar de ter menos repercussão que os escândalos do Planalto, levaria as contas para o brejo.

Embora pareça uma afirmação correspondente à realidade, a ineficiência no uso do dinheiro público não é o ponto central dos nossos infortúnios. Na verdade, não há recursos para a saúde, educação, transporte, habitação... e a razão é o excessivo gasto com os juros da dívida, pagos com até 20% do orçamento de cada área (permitida pela Desvinculação de Recursos da União), em um cenário de crescimento econômico baixíssimo. A taxa média de elevação do PIB entre 1948 e 1981 foi de 7,1%, enquanto de 1982 a 2006 foi de apenas 2,5%.

Jornalistas, economistas e acadêmicos costumam apontar a transferência de renda da União feita aos pobres, através dos investimentos sociais, como culpada pela má gestão governamental. Para modernizar o elefante branco que seria o Estado, dizem ser necessário reduzir gastos com benefícios previdenciários,
alocar recursos na saúde e educação e, muitas vezes, privilegiar entidades não-governamentais que imprimiriam mais agilidade e transparência aos serviços.

Tais especialistas, bastante atentos, curiosamente esquecem das transferências feitas àqueles que têm dinheiro, através de juros. Em 2006, o governo destinou ao saneamento e à saúde,
esta sendo um dos maiores orçamentos da área social, cerca de R$ 39,8 bilhões. Já com juros e encargos da dívida, valores destinados a uma pequena elite financeira, o gasto foi bem maior: R$ 151,16 bilhões.

Esses profissionais não se lembram também que o crescimento econômico (gerador de emprego e renda) é imprescindível para sustentar a ampliação de gastos na área social, ainda que os impostos arrecadados sejam absurdamente elevados. Quando mencionam o crescimento não advogam pela queda da taxa de juros - que possibilitaria a expansão do crédito para novos investimentos produtivos privados - nem por um real e maciço investimento estatal em setores básicos e de infra-estrutura.

Como instrumentos de divulgação de ideologias, o corpo técnico de entidades multilaterais como Banco Mundial (BIRD) e Fundo Monetário Internacional (FMI), economistas de grandes instituições financeiras, funcionários de grandes veículos de comunicação financiados pela publicidade de multinacionais e bolsistas de programas científicos e culturais, promovidos por países centrais, são pagos para elaborar teses que acabam por ser aceitas passivamente pela opinião pública.

Na nova ordem da globalização, virou moda ter a convicção que a ação estatal deve ser reduzida. O Estado mínimo é indicado aos países periféricos (não se imagina o enfraquecimento da superpotência norte-americana) para que grandes empresas e o capital financeiro internacional possam transitar livremente e não sejam submetidos a nenhuma regulamentação contrária a seus interesses. A idéia, percebida como neutra, desejável e necessária, induz a equívocos que dão sustentação a políticas nocivas ao país.

Da década de 1930 até o fim dos anos 1970, o Estado teve o papel fundamental de financiar e realizar empreendimentos de infra-estrutura que fizeram o Brasil passar de um país rural para uma sociedade urbana de massas - em setores onde o capital privado não se lançaria devido à grande monta envolvida e ao longo tempo de maturação. Assim, houve ascensão social de significativa parte da população brasileira. Embora um dos maiores índices de desigualdade do mundo tenha se mantido, o povo tinha a perspectiva de ter uma vida melhor que a de seus pais.

Depois de quase trinta anos de semi-estagnação e ataque contra a função social do Estado (em 1950 sua importância para o desenvolvimento do país não era discutida), vivemos uma regressão social sem precedentes. O ensino no Brasil é avaliado como um dos piores, nunca há vagas no mercado de trabalho e os filhos da classe média são obrigados a viver da renda dos familiares, cada vez mais empobrecidos. Tudo isso porque o Estado tem se eximido da responsabilidade de promover o crescimento econômico, através de efetiva redução de juros, pois não se dispõe a contrariar interesses do capital financeiro nacional e internacional. Se o fizesse, poderia ampliar os gastos de forma a assegurar padrões civilizados de relações sociais.

Em suma, em uma sociedade esfacelada, onde os termos "soberania" e "projeto nacional" tornaram-se ultrapassados, reina a violência, a ignorância e, aos desavisados, a manipulação.

Há pouco tempo foi publicado um artigo que toca nessa questão: "Transferência de renda aos ricos e pobres no Brasil - Notas sobre os juros altos e o Bolsa-Família", encontrado em www.eco.unicamp.br/cesit/boletim, dos professores Davi José Nardy Antunes e Denis Maracci Gimenez, da Unicamp. Para eles, os gastos governamentais são atacados "como se estivesse sendo realizada uma verdadeira orgia com os gastos públicos" quando, ao invés de cortes, deveriam ser feitos investimentos em infra-estrutura, treinamento e melhores salários aos servidores para eliminar os desperdícios que realmente existem e para melhorar a gestão e a administração pública.